{"id":1355,"date":"2023-05-30T20:01:00","date_gmt":"2023-05-30T18:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/congresamp2024.world\/?p=1355"},"modified":"2023-09-24T19:45:27","modified_gmt":"2023-09-24T17:45:27","slug":"todo-mundo-e-louco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/congresamp2024.world\/pt-br\/todo-mundo-e-louco\/","title":{"rendered":"\u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>AMP 2024<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Dedico esta confer\u00eancia a Angelina Harari que, como presidente, ao longo de quatro anos conduziu a vida da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) com sua m\u00e3o por vezes dura, por vezes doce, sempre com pertin\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Cabe a mim dar o t\u00edtulo dos Congressos da AMP<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">*<\/a>&nbsp;. Por que \u00e9 assim? O h\u00e1bito tomou conta, tornou-se uma esp\u00e9cie de tradi\u00e7\u00e3o \u2013 que perigo! N\u00e3o ser\u00e1 sempre assim. Mas \u00e9 preciso acreditar que esse momento ainda n\u00e3o chegou. Portanto, prossigo. Nosso pr\u00f3ximo Congresso ter\u00e1 como t\u00edtulo: <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em><a>&nbsp;<\/a><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[1]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contexto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todo mundo \u00e9 louco<\/em>,<em> <\/em>tal como o t\u00edtulo desta Grande Conversa\u00e7\u00e3o Virtual, <em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>, \u00e9 um aforismo de Lacan. Eu o pesquei em um escrito min\u00fasculo, composto por Lacan a meu pedido. Tratava-se, ent\u00e3o, de defender o Departamento de Psican\u00e1lise de Vincennes, cuja exist\u00eancia, no \u00e2mago da Universidade de Paris 8, estava amea\u00e7ada. Ali\u00e1s, ela ainda \u00e9 amea\u00e7ada, todos os anos \u2013 por raz\u00f5es conjunturais e tamb\u00e9m por uma raz\u00e3o de estrutura. \u00c9 que, na verdade, como escreve Lacan, \u201c<em>a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria de ensino<\/em>\u201d&nbsp;<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[2]<\/a>. Isso se deve \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, que chamo de estrutural, entre o discurso anal\u00edtico e o discurso universit\u00e1rio, entre o saber sempre suposto na pr\u00e1tica da psican\u00e1lise e o saber exposto, que ocupa um lugar de destaque no discurso universit\u00e1rio. N\u00e3o vou desenvolver essa oposi\u00e7\u00e3o bem conhecida por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Extra\u00ed este aforismo de algumas linhas escritas por Lacan em um tempo que se poderia dizer que \u00e9 de al\u00e9m-t\u00famulo, uma vez que se situa depois do <em>Semin\u00e1rio<\/em> intitulado por ele de \u201cO momento de concluir\u201d. Tudo o que Lacan escreveu ou proferiu depois desse <em>Semin\u00e1rio<\/em> goza de um estatuto especial, o de <em>a posteriori <\/em>do conjunto realizado de seu <em>ensino<\/em> \u2013 vou usar esta palavra, tamb\u00e9m empregada por ele antes de a repelir. \u00c9 o que d\u00e1 a essas proposi\u00e7\u00f5es fragment\u00e1rias um valor testament\u00e1rio. Lacan formulou <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em> uma \u00fanica vez, em um texto publicado em uma revista confidencial, na \u00e9poca, <em>Ornicar?<\/em> Pelo fato de eu t\u00ea-lo pin\u00e7ado, comentado, repetido, esse aforismo entrou na nossa l\u00edngua comum, a da AMP, e naquilo que poder\u00edamos chamar de nossa <em>doxa<\/em>. Tornou-se at\u00e9 mesmo uma esp\u00e9cie de slogan.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No contexto da \u00e9poca, ele foi ouvido de uma forma que lisonjeia os preconceitos contempor\u00e2neos, os da reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de uma igualdade fundamental dos cidad\u00e3os, impondo-se \u00e0 hierarquia tradicional, desconstruindo-a, esta que regia a rela\u00e7\u00e3o do terapeuta com seu paciente. Digo isso sem nostalgia, ainda que que Lacan tenha antecipado a ideologia contempor\u00e2nea da igualdade universal dos seres falantes ao enfatizar a fraternidade como devendo ligar, segundo ele, o terapeuta a seu paciente. <em>O homem \u00ab&nbsp;liberado&nbsp;\u00bb da sociedade moderna, <\/em>dizia ele, temos de acolh\u00ea-lo e, cito\u201creabrir[para ele]o caminho de seu sentido, numa fraternidade discreta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual sempre somos por demais desiguais\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[3]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Despatologiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se \u00e9 de fraternidade que se trata, h\u00e1 muito ela deixou de ser discreta para ser, ao contr\u00e1rio, exigida a plenos pulm\u00f5es sob a forma de uma igualdade total, inteira, dos seres falantes.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nestas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o nos surpreendamos que essa reivindica\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria se traduza no desaparecimento programado da cl\u00ednica. Todos os tipos cl\u00ednicos s\u00e3o progressivamente subtra\u00eddos do grande cat\u00e1logo cl\u00ednico, j\u00e1 rebaixado e desconstru\u00eddo pelas sucessivas edi\u00e7\u00f5es do DSM. E isto em um tempo no qual todos os indiv\u00edduos acometidos por um transtorno mental, por uma defici\u00eancia, pelo que antes era considerado como anormalidade, se associam e formam grupo. Esses grupos, juridicamente fundamentados, inscritos, s\u00e3o com frequ\u00eancia constitu\u00eddos como grupos de press\u00e3o \u2013 at\u00e9 mesmo os dos autistas, dos ouvidores de vozes, etc. Tudo anuncia que a cl\u00ednica logo ser\u00e1 coisa do passado. Cabe a n\u00f3s alinhar nossa pr\u00e1tica a essa nova era, sem nostalgia, sem amargura, sem esp\u00edrito de vingan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num tal contexto, o aforismo lacaniano s\u00f3 pode ser interpretado como assumindo, validando um termo que est\u00e1 de agora em diante em uso (n\u00f3s o ouvimos ressoar mais de uma vez durante esta Grande Conversa\u00e7\u00e3o): a \u201cdespatologiza\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o haver\u00e1 mais patologias, haver\u00e1, j\u00e1 h\u00e1, em vez disso, estilos de vida, livremente escolhidos \u2013 uma liberdade imprescrit\u00edvel porque ela \u00e9 a dos sujeitos de direito (<em>droit<\/em>). Digamos que <em>o reto <\/em>(droit)<em> leva a melhor sobre o torto<\/em>&nbsp;<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Freud fala da substitui\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de prazer pelo princ\u00edpio de realidade. Assistimos \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio cl\u00ednico pelo princ\u00edpio jur\u00eddico, e o primeiro passa a ser assimilado a um suprematismo, doravante aviltado nos regimes democr\u00e1ticos. As consequ\u00eancias se fazem sentir desde j\u00e1. Para dar um \u00fanico exemplo recente, a lei adotada este ano pelo Parlamento franc\u00eas estipula que qualquer reserva, retic\u00eancia, modula\u00e7\u00e3o feita a pedido de um sujeito \u2013 sujeito de direito \u2013 de uma transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, tal como se diz, ser\u00e1 doravante constitu\u00edda como delito. Foi necess\u00e1ria a interven\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias da Escola da Causa Freudiana para que a Assembleia Nacional e o Senado homologassem duas emendas fundamentando uma exce\u00e7\u00e3o para os terapeutas, desde que suas proposi\u00e7\u00f5es demonstrem prud\u00eancia, convidem \u00e0 reflex\u00e3o e n\u00e3o contrariem a benevol\u00eancia e o respeito que se imp\u00f5em diante do que chamei de livre escolha de seu estilo de vida. Um pol\u00edtico franc\u00eas prop\u00f5e, hoje inclusive, que a mudan\u00e7a de sexo seja introduzida na Constitui\u00e7\u00e3o francesa e reconhecida como um direito humano fundamental, at\u00e9 ent\u00e3o negligenciado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessas condi\u00e7\u00f5es, o aforismo formulado por Lacan em 1978 \u00e9 entendido como perfeitamente conectado com o <em>Zeitgeist<\/em>, o esp\u00edrito da \u00e9poca. No entanto, nessa via, teria sido melhor dizer: <em>Todo mundo \u00e9 normal<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um duplo paradoxo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A f\u00f3rmula <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>, completada no texto de Lacan por um \u201cou seja<em>,<\/em> delirante\u201d,n\u00e3o deixa de fazer ressoar, por\u00e9m, algum rangido. De fato, a imputa\u00e7\u00e3o de loucura e de del\u00edrio ainda decorre da cl\u00ednica. Seria validar, ao que parece, o fim da cl\u00ednica, mas em termos que pertencem \u00e0 cl\u00ednica. Ora, esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico paradoxo introduzido por esse aforismo. Com efeito, <em>Todo mundo \u00e9 louco<\/em>, quem diz isso? S\u00f3 pode ser um louco. Sua proposi\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, delirante. Como universal, \u00e9 o decalque exato do dito de Epim\u00eanides, enunciado no singular por um <em>Eu <\/em>(Je), a saber, <em>Eu minto <\/em>(Je mens)<em>.<\/em> Este duplo paradoxo \u00e9 suscet\u00edvel de fazer suspeitar que h\u00e1, no aforismo em quest\u00e3o, algo mais e talvez diferente da valida\u00e7\u00e3o da dita \u2018despatologiza\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconhe\u00e7o que, difundindo este aforismo, cortando-o de seu contexto escritur\u00edstico, elevando-o ou rebaixando-o \u00e0 qualidade de um slogan \u2013 oh, quanto \u00e9 eficaz! \u2013, eu, sem d\u00favida, favoreci um mal-entendido que deve ser corrigido no momento de fazer dele o tema do nosso pr\u00f3ximo congresso. Nada mais simples: basta ressitu\u00e1-lo no contexto deste breve escrito do qual o extra\u00ed \u2013 ao que me dedicarei sob a forma inevitavelmente abreviada exigida pela fun\u00e7\u00e3o de encerramento que determina meu dever aqui.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dial\u00e9tica a favor da cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes de me dedicar a este trabalho de recontextualiza\u00e7\u00e3o indico, em um breve excurso, como se poderia \u2018salvar a cl\u00ednica\u2019a despeito de qualquer despatologiza\u00e7\u00e3o. Bastaria recorrer \u00e0 dial\u00e9tica do Monsenhor Dupanloup, ajustada para acalmar os ardores daqueles que, na Igreja, se insurgiam contra as proscri\u00e7\u00f5es concernentes ao progresso, ao liberalismo e \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o moderna articulados no <em>Syllabus<\/em> do Papa Pio IX. O astuto bispo, porta-voz da corrente liberal, procede distinguindo dois n\u00edveis: aquele que ele chama de tese, onde o princ\u00edpio \u00e9 afirmado como absoluto; depois, abaixo disso, ele inscreve a hip\u00f3tese (no sentido daquilo que est\u00e1 sob a tese), onde triunfa o relativo. O princ\u00edpio, embora absoluto em seu n\u00edvel, permite que se abra um espa\u00e7o para modula\u00e7\u00f5es, certamente subordinadas, mas nas quais s\u00e3o levadas em conta as circunst\u00e2ncias, o que \u00e9 oportuno e o que n\u00e3o o \u00e9, as necessidades da operacionalidade, etc. Assim, o absoluto e o relativo, longe de se contradizerem um ao outro, coexistem como bons vizinhos, com a condi\u00e7\u00e3o de que se estabele\u00e7a uma hierarquia entre os dois termos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para nos servirmos dessa dial\u00e9tica: a tese como absoluto corresponderia ao desaparecimento de toda patologia e ao igualitarismo p\u00f3s-cl\u00ednico. Todavia, no interesse do p\u00fablico, para evitar a desordem e at\u00e9 mesmo as destrui\u00e7\u00f5es que a aplica\u00e7\u00e3o cega do princ\u00edpio absoluto n\u00e3o deixaria de acarretar, as distin\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica seriam conservadas no n\u00edvel subordinado da hip\u00f3tese. Eu me permito observar que isto reconciliaria o ponto de vista dos meus colegas Dominique Laurent e Fran\u00e7ois Leguil&nbsp;<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[5]<\/a> com o meu \u2013 tese para mim, hip\u00f3tese para eles.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que n\u00e3o se ensina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois dessa digress\u00e3o, minha primeira observa\u00e7\u00e3o, ou retifica\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 das mais simples: contento-me em levar em conta a frase que se segue imediatamente ao \u201cTodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d. Esta frase \u00e9 a seguinte: \u201c\u00c9 isso mesmo que se demonstra no primeiro passo rumo ao ensino\u201d<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[6]<\/a><em>.<\/em> Aqui, nada de despatologiza\u00e7\u00e3o, mas um rebaixamento, uma destitui\u00e7\u00e3o e, por que n\u00e3o, uma desconstru\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o ensino \u2013 isto pode parecer surpreendente da parte de um sujeito que por muito tempo celebrou a posi\u00e7\u00e3o de professor e que falava, ele pr\u00f3prio, a partir de seu ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, o que, segundo Lacan \u2013 o ultim\u00edssimo Lacan, o al\u00e9m-Lacan \u2013, se demonstra assim sen\u00e3o que ensinar \u00e9 uma loucura, que o ensino \u00e9 um del\u00edrio? Deste modo, o aforismo em quest\u00e3o se inscreve no \u00e2mbito de uma cr\u00edtica feroz \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do ensino. Essa cr\u00edtica feroz \u2013 e, acrescentaria eu, propriamente cl\u00ednica \u2013 enquadra o aforismo \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d. Relendo o que o precede no texto, percebe-se que, desde o in\u00edcio, trata-se de uma cr\u00edtica, n\u00e3o da cl\u00ednica, mas, sim, de todo ensino. A partir da\u00ed, ouve-se o slogan como enunciando: \u201c\u00c9 preciso ser louco para ensinar, quem ensina delira\u201d. \u00c0 primeira vista, o que preocupa Lacan \u00e9, ao que parece, a estrutura de todo ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Curiosa maneira de defender o Departamento de Psican\u00e1lise \u2013 que ele encorajou e cuja exist\u00eancia sempre sustentou \u2013 ao desvalorizar o ensino e, muito particularmente, o da psican\u00e1lise, escrevendo que \u201co discurso anal\u00edtico n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria de ensino\u201d. E por que n\u00e3o \u00e9? Quais s\u00e3o as raz\u00f5es alegadas por Lacan para combater assim a fun\u00e7\u00e3o do ensino?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em primeiro lugar, o discurso anal\u00edtico, diferentemente dos tr\u00eas outros constru\u00eddos por ele, \u201cn\u00e3o ensina nada porque \u2013 Lacan o enuncia \u2013 ele exclui a domina\u00e7\u00e3o\u201d. O discurso anal\u00edtico n\u00e3o \u00e9 o discurso do mestre que \u00e9, por excel\u00eancia, discurso da domina\u00e7\u00e3o, dado que este se estabelece sob o indiscut\u00edvel de um significante-mestre. O discurso do mestre ensina o que \u00e9 um saber, ou seja, que o saber \u00e9 sempre servo de um significante-mestre \u2013 isto n\u00e3o \u00e9 desmentido pelas condi\u00e7\u00f5es de nascimento da Universidade, que pode ser situado aproximadamente na \u00e9poca de Carlos Magno. O discurso anal\u00edtico n\u00e3o \u00e9, tampouco, um discurso universit\u00e1rio, que instala um saber no lugar dominante, que permite e at\u00e9 mesmo exige o ensino. O discurso universit\u00e1rio \u00e9, por excel\u00eancia, discurso do ensino. Por fim, o discurso da hist\u00e9rica faz do sujeito o mestre do mestre; ele domina o dominador e, ao faz\u00ea-lo, o p\u00f5e a trabalho, o de produzir um saber. Ele n\u00e3o \u00e9 o saber servo do mestre, menos ainda o saber-mestre. \u00c9 o discurso que impele \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do saber, tanto assim que Lacan enfatiza a afinidade estrutural do discurso da hist\u00e9rica com o da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso anal\u00edtico tamb\u00e9m comporta o lugar da domina\u00e7\u00e3o \u2013 no canto superior esquerdo dos esquemas de Lacan. No entanto, esse lugar \u00e9 ocupado por um elemento que n\u00e3o \u00e9 feito para dominar, comandar, submeter, mas para causar o desejo: o que Lacan chama de objeto <em>a<\/em>. O objeto <em>a<\/em>, causa do desejo, digo eu, uma vez que, precisamente, o desejo n\u00e3o se deixa dominar, \u00e9 arisco a todo comando, engana-o e zomba dele. Onde est\u00e1 o saber nesse discurso? Ele est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de nunca ser sen\u00e3o suposto \u2013 e n\u00e3o expl\u00edcito \u2013, \u00e0 diferen\u00e7a do discurso universit\u00e1rio. Nunca sendo sen\u00e3o suposto, \u00e9 como um <em>sub-posto<\/em> (sous-pos\u00e9) que ele sustenta a inst\u00e2ncia da causa do desejo da qual o analista se faz o semblante. Aqui, nada de ensino, o que n\u00e3o impede que seja poss\u00edvel, eventualmente, aprender com ele (<em>s\u2019en enseigner<\/em>), mas trata-se de um saber sem valor de ensino, sem ordem, nem coer\u00eancia, nem sistema, um saber que se deve a encontros aleat\u00f3rios, sem lei. Portanto, o discurso anal\u00edtico n\u00e3o domina. E, em particular, ele n\u00e3o domina seu sujeito \u2013 a ser entendido como voc\u00eas quiserem.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segunda raz\u00e3o alegada por Lacan para recusar ao discurso anal\u00edtico a capacidade de ser mat\u00e9ria de ensino: \u2018ele n\u00e3o tem nada de universal\u2019. De fato, ele n\u00e3o \u00e9 de forma alguma \u2018para todos\u2019. Ele \u00e9, digamos, para um s\u00f3, para o <em>Um-sozinho <\/em>(<em>l\u2019Un-tout-seul<\/em>). \u00c9 para ele sozinho que a interpreta\u00e7\u00e3o pode dar lugar a um saber, o qual desvanece assim que voc\u00ea pretende universaliz\u00e1-lo, faz\u00ea-lo valer para todos. Tentem, ent\u00e3o, explicar a um grande p\u00fablico o efeito sensacional de uma interpreta\u00e7\u00e3o: isso apenas real\u00e7ar\u00e1 seu car\u00e1ter banal, ou bem discut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Introduzo aqui uma modula\u00e7\u00e3o. Lacan n\u00e3o diz que a psican\u00e1lise n\u00e3o poderia ser mat\u00e9ria de ensino, mas, sim, que o discurso anal\u00edtico n\u00e3o o poderia ser, ou seja, a grosso modo, a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise. Ademais, h\u00e1, ao lado, as teorias da psican\u00e1lise, sua hist\u00f3ria, bem como os debates suscitados por ela e que se depositam. Uma vez entendida essa partilha, essa divis\u00e3o entre pr\u00e1tica e teoria da psican\u00e1lise, n\u00e3o h\u00e1, aqui, nenhuma refuta\u00e7\u00e3o do Departamento de Psican\u00e1lise, da presen\u00e7a da psican\u00e1lise na Universidade. Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o que abre e libera um campo: a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise n\u00e3o se ensina, no m\u00e1ximo, ela \u00e9 supervisionada, ocasionalmente, a cada vez e concernente a um caso singular, que n\u00e3o se deixa levar ao universal, mas que se pode elevar, quando ele se presta a isto, \u00e0 dignidade do paradigma.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trata-se, portanto, de uma advert\u00eancia de Lacan para com seus alunos. Saibam claramente e fa\u00e7am saber que nada do que lhes for ensinado sobre a psican\u00e1lise na Universidade lhes permitir\u00e1, a voc\u00eas, fazerem a economia de uma psican\u00e1lise. Ser\u00e1 preciso, como indica a abertura dos <em>Escritos<\/em>, \u201ccolocar algo de si\u201d<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\"><strong>[7]<\/strong><\/a><strong><em>,<\/em><\/strong> pagar com a sua pessoa e isso, como algo muito diferente de um aluno, a saber, como analisante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do imposs\u00edvel ao necess\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ordeno a sequ\u00eancia do meu discurso de encerramento, que \u00e9 mais o de uma abertura, atendo-me a esse texto de Lacan e, antes de tudo, \u00e0 frase que fiz colocar na capa de seus pequenos escritos reunidos na colet\u00e2nea intitulada \u201cParadoxos\u201d. \u00c9 com o terceiro dos paradoxos desse texto que come\u00e7a o segundo par\u00e1grafo: \u201cComo fazer para ensinar o que n\u00e3o se ensina?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que Lacan transmuta um imposs\u00edvel em um real. Digamos que ele passa aqui do imposs\u00edvel ao necess\u00e1rio. O que \u00e9 imposs\u00edvel ensinar, n\u00e3o obstante, como ensin\u00e1-lo? De fato, apesar de ser imposs\u00edvel ensinar, isso, no entanto, \u00e9 necess\u00e1rio. Ser\u00e1 preciso, primeiro, distinguir ensinar e ensinar, ou seja, para retomar o termo de Bertrand Russell, \u201cestratificar\u201d os dois termos. H\u00e1 o ensinar considerado do lado do imposs\u00edvel e o ensinar do lado do necess\u00e1rio. De um ao outro, certamente \u00e9 problem\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta passagem n\u00e3o \u00e9 para todos. Lacan deixa entender que ela n\u00e3o concerne a \u2018todos\u2019, mas a <em>um<\/em>, a saber, Freud. A frase seguinte o convoca: \u201cFoi por a\u00ed que Freud caminhou\u201d. Aqui, h\u00e1 um privil\u00e9gio: Freud, o primeiro e por muito tempo, tinha o encargo de ensinar o que n\u00e3o se ensina, ou seja, a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise. E ele o fez pagando com sua pessoa. Na <em>Traumdeutung<\/em>, ele apresenta muitos de seus sonhos e nunca recua em recorrer \u00e0s suas pr\u00f3prias forma\u00e7\u00f5es do inconsciente para fazer avan\u00e7ar a psican\u00e1lise. Ora, o que vale para ele n\u00e3o vale para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas, diria eu, vale tamb\u00e9m para Lacan. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ele n\u00e3o tenha pensado em si mesmo. Ele, por\u00e9m, n\u00e3o o diz. Talvez este seja o \u00fanico caso em que ele d\u00e1 provas de mod\u00e9stia, uma vez que ele n\u00e3o era propenso a isso. Dado que Lacan foi um reformador da pr\u00e1tica anal\u00edtica, isto certamente vale para ele tamb\u00e9m, embora tenha se defendido disso dizendo que os tra\u00e7os por meio dos quais sua pr\u00e1tica se distingue s\u00f3 valem para ele mesmo. Imit\u00e1-lo ou n\u00e3o, \u00e9 da responsabilidade de cada um. Ele, no entanto, em certa ocasi\u00e3o, fez uma doutrina da dura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel da sess\u00e3o, mas n\u00e3o de sua brevidade. Haveria muito a dizer aqui, o que n\u00e3o farei agora, pois real\u00e7arei a frase seguinte onde figura nosso aforismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cTudo n\u00e3o passa de sonho (<\/strong><strong><em>Rien n\u2019est que r\u00eave<\/em><\/strong><strong>)\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 ela: \u201cFreud considerou que tudo n\u00e3o passa de sonho, e que todo mundo (se tal express\u00e3o pode ser dita) \u2013 de fato, \u00e9 universal, contrariamente ao que ele afirma anteriormente \u2013, todo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d. As teses concentradas nesta frase, concernem, a um s\u00f3 tempo, ao sonho, \u00e0 loucura e ao del\u00edrio. Elas demandam um desdobramento. Deve-se notar que elas s\u00e3o atribu\u00eddas, por Lacan, a Freud. Assim, \u00e9 antes de mais nada \u00e0s obras de Freud que recorrerei para esclarecer essa frase, onde toda a metapsicologia e toda a cl\u00ednica est\u00e3o em jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>Notem que, em Lacan, as sess\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas a serem curtas, e at\u00e9 mesmo ultracurtas. Seus escritos est\u00e3o sempre sob tens\u00e3o, uma tens\u00e3o incessantemente em movimento \u2013 ora ele faz rodeios, associa, vagueia, ora seu discurso se condensa bruscamente e dispara uma flecha implac\u00e1vel que fulgura. \u00c9 o caso dessa frase \u2013 s\u00f3 que, nesse breve escrito, tudo \u00e9 magro, despojado, reduzido ao osso.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos com a proposi\u00e7\u00e3o: \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d. Frase de tirar o f\u00f4lego. Perguntamo-nos se foi Lacan quem p\u00f4de escrever isso, quando, em um <em>Semin\u00e1rio<\/em>, ele se refere ao c\u00e9lebre t\u00edtulo da pe\u00e7a de Calder\u00f3n, <em>La Vie est un<\/em> <em>songe, <\/em>para negar a tese que ela cont\u00e9m e invalid\u00e1-la, no que diz respeito ao discurso anal\u00edtico. Se tudo \u00e9 sonho, o que \u00e9 o real? Devemos chegar a enunciar: \u201cnada \u00e9 real\u201d(<em>rien n\u2019est r\u00e9el<\/em>) (real no sentido de Lacan)? O real \u00e9 apenas ilus\u00e3o, fic\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo del\u00edrio? Afinal, por que n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui s\u00e3o evocadas proposi\u00e7\u00f5es de Lacan que sempre foram consideradas enigm\u00e1ticas. Na primeira li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio<\/em>:<em> O sinthoma<\/em>, Lacan aponta a homogeneidade do imagin\u00e1rio e do real, que ele prop\u00f5e fundamentar-se na estrutura bin\u00e1ria do n\u00famero, antes de fazer refer\u00eancia \u00e0 teoria de Cantor \u2013 que encontramos, por outro lado, na sequ\u00eancia desse texto cuja composi\u00e7\u00e3o analiso de perto. Isso \u00e9 certamente homog\u00eaneo ao que se diz sob a forma \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d. A homogeneidade imagin\u00e1rio-real \u00e9 completada pela nota\u00e7\u00e3o de que \u201co s\u00edmbolo remete ao imagin\u00e1rio\u201d<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[8]<\/a>. Tudo se passa como se, no que concerne \u00e0 matem\u00e1tica evocada por ele e, precisamente, \u00e0 teoria dos conjuntos, tanto o real quanto o simb\u00f3lico fossem reabsorvidos no imagin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisamos disso para que seja fundamentada a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d?Essa supremacia do imagin\u00e1rio \u00e9, claramente, a condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non <\/em>para que se possa dizer \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d<em>.<\/em> Lacan iniciou o que deve ser chamado de seu ensino acentuando a preval\u00eancia do imagin\u00e1rio, por exemplo, em \u201cO est\u00e1dio do espelho&#8230;\u201d. N\u00e3o seria tamb\u00e9m o imagin\u00e1rio cuja promo\u00e7\u00e3o Lacan garantiria ao final da trajet\u00f3ria de seu discurso? Isto n\u00e3o deixaria de ser satisfat\u00f3rio para a mente que aprecia que o discurso se feche sobre si mesmo. Todavia, deixo esse tema em suspenso utilizando um estilo interrogativo al\u00e9m do condiciona<a>l.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Inven\u00e7\u00e3o do real<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo esse fio, uma segunda proposi\u00e7\u00e3o de Lacan encontra-se na li\u00e7\u00e3o IX do mesmo <em>Semin\u00e1rio<\/em>. Ele mesmo ressalta, aqui, que se afasta de Freud. Com efeito, diz ele: \u201c(&#8230;) a inst\u00e2ncia do saber renovada por Freud, quero dizer renovada sob a forma do inconsciente, n\u00e3o sup\u00f5e obrigatoriamente de modo algum o real de que me sirvo\u201d<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[9]<\/a>. Retenho dessa proposi\u00e7\u00e3o que, segundo Lacan, a teoria freudiana do inconsciente n\u00e3o sup\u00f5e o real e que ela poderia sustentar-se sem o real.<\/p>\n\n\n\n<p>O real em fun\u00e7\u00e3o no discurso anal\u00edtico \u00e9 inven\u00e7\u00e3o dele, ele \u00e9 \u2013 indica Lacan \u2013 sua \u201crea\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 articula\u00e7\u00e3o freudiana do inconsciente: ele reage a esta articula\u00e7\u00e3o inventando o real. Lacan chega a reduzir o real a ser apenas sua \u201cresposta sintom\u00e1tica\u201d<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[10]<\/a> ao inconsciente freudiano. Isso implica em retirar desse termo toda pretens\u00e3o ao universal, reduzi-lo ao sintoma do um-sozinho. H\u00e1 muito a dizer, aqui, mas vou abreviar.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornemos \u00e0 ideia de que a teoria de Freud n\u00e3o sup\u00f5e o real. Sim, sem d\u00favida, mas ela articula que alguma coisa opera, permitindo ao sujeito discriminar \u2013 digamos, sem entrar em detalhes \u2013 entre sonho ou alucina\u00e7\u00e3o, por um lado, e realidade, por outro.<a><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Substituir sem revogar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Freud variou muito sobre o estatuto deste aparelho, deste dispositivo nomeado por ele de <em>Realit\u00e4tspr\u00fcfung<\/em>, o teste de realidade, como foi traduzido. Formular, como faz Lacan, que \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d, \u00e9 desdenhar o teste da realidade. \u00c9 amputar a teoria freudiana de um termo que, no entanto, parece essencial e assim \u00e9 considerado pelos psicanalistas.<\/p>\n\n\n\n<p><a>Que impud\u00eancia nadificar o teste de realidade e, al\u00e9m do mais, imputar isso a Freud! <\/a>No entanto, a teoria freudiana n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o obscura que n\u00e3o se possa discriminar, atrav\u00e9s de sua obra, o que se mant\u00e9m e o que se descarta quanto a esse ponto. H\u00e1 espa\u00e7o para uma escolha na obra de Freud \u2013 que n\u00e3o \u00e9 o jardim \u00e0 francesa plantado por Lacan, mas, ao contr\u00e1rio, uma selva. Lacan escolhe enfatizar em Freud o que relativiza, at\u00e9 mesmo torna ilus\u00f3ria a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de teste de realidade. A quest\u00e3o \u00e9 apaixonante para um analista, s\u00f3 posso abord\u00e1-la, aqui, em curto-circuito.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essa raz\u00e3o, irei imediatamente ao breve e magistral texto de Freud intitulado \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre os dois princ\u00edpios do funcionamento ps\u00edquico\u201d &#8211; ou \u201cmental\u201d, conforme a tradu\u00e7\u00e3o &#8211; de 1911, deixando de lado dois textos que o precedem: o primeiro, em \u201cProjeto para uma Psicologia Cient\u00edfica\u201d, de 1895; o segundo, no famoso cap\u00edtulo VII da <em>Traumdeutung<\/em>. Tamb\u00e9m deixo de lado o texto escrito tr\u00eas anos mais tarde sobre a metapsicologia dos sonhos, onde ele enuncia \u2013 creio que pela primeira vez, como aponta James Strachey, o admir\u00e1vel tradutor de toda a obra de Freud para o ingl\u00eas \u2013 que o \u2018eu\u2019 \u00e9 a sede do teste de realidade (ele tamb\u00e9m anota isso em seu escrito sobre a <em>Verneinung<\/em>). Freud introduziu o termo <em>teste de realidade<\/em>, pela primeira vez, em \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre os dois princ\u00edpios&#8230;\u201d , mas foi para logo notar que os processos inconscientes zombam do teste de realidade, s\u00e3o imperme\u00e1veis \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, o texto visa a articular a rela\u00e7\u00e3o entre o princ\u00edpio de prazer e o princ\u00edpio de realidade. Detenhamo-nos na tese de Freud segundo a qual o acontecimento decisivo no desenvolvimento ps\u00edquico \u00e9 a <em>Einsetzung<\/em>, a instaura\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de realidade, que constituiria um progresso da mais alta import\u00e2ncia: o princ\u00edpio de realidade substitui o que era agrad\u00e1vel, buscado sob o imp\u00e9rio do princ\u00edpio de prazer, um <em>Lustgewinn<\/em>, um ganho de prazer, um <em>mais-de-gozar<\/em>. Temos, aqui, a satisfa\u00e7\u00e3o de reencontrar, em psican\u00e1lise, um dos esquemas mais tradicionais, segundo o qual crescer, alcan\u00e7ar a maturidade implica renunciar ao prazer para confrontar-se com a dura realidade. Acabou o riso! No entanto, como j\u00e1 foi observado, o inconsciente n\u00e3o conhece o teste de realidade.<\/p>\n\n\n\n<p><a>Acrescente-se a isto uma nota\u00e7\u00e3o essencial de Freud, que vem matizar, e at\u00e9 mesmo contradizer a ideia de uma substitui\u00e7\u00e3o pura e simples do primeiro princ\u00edpio pelo <\/a><a><\/a>segundo. O pr\u00f3prio Freud matiza sua proposi\u00e7\u00e3o: estar\u00edamos errados em pensar que a substitui\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de prazer pelo princ\u00edpio de realidade implica deposi\u00e7\u00e3o, revoga\u00e7\u00e3o, destitui\u00e7\u00e3o (<em>Absetzung<\/em>, em alem\u00e3o). <em>Efetivamente<\/em> \u2013 termo pelo qual traduzo a palavra <em>Wirklichkeit<\/em> \u2013, <em>essa substitui\u00e7\u00e3o permite, ao contr\u00e1rio<\/em>, diz Freud, \u201ca preserva\u00e7\u00e3o, a salvaguarda do princ\u00edpio de prazer\u201d<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, parodiando uma frase famosa de Clausewitz, a substitui\u00e7\u00e3o permite o prosseguimento do princ\u00edpio do prazer por meio do princ\u00edpio da realidade. O que se trata de obter por meio do princ\u00edpio do prazer, e depois pelo princ\u00edpio de realidade \u00e9, sempre, o <em>Lustgewinn<\/em>, segundo o termo por vezes empregado por Freud e que traduziremos por esta express\u00e3o de Lacan: o mais-de-gozar. E este se revela, para retomar, agora, uma f\u00f3rmula de Lacan, \u201cimposs\u00edvel de negativizar\u201d pelo princ\u00edpio da realidad<a>e.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sonho e loucura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em curto-circuito, digamos que se escolhermos privilegiar essa perspectiva, e n\u00e3o a do dito teste de realidade, demonstramos em qu\u00ea o estado do sonhador \u00e9 indestrut\u00edvel, que o despertar \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o. Acordar \u00e9 continuar a sonhar com os olhos abertos. Nesse sentido, de fato, \u201ctudo n\u00e3o passa de sonho\u201d. Para Freud, o del\u00edrio pertence \u00e0 mesma classe de fen\u00f4menos ps\u00edquicos que o sonho. Isso \u00e9 enunciado no pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o da <em>Traumdeutung<\/em>: \u201co sonho \u00e9 o primeiro elemento de uma classe de fen\u00f4menos ps\u00edquicos anormais, cujos outros membros s\u00e3o as fobias, as obsess\u00f5es e os del\u00edrios\u201d. Seria preciso saber por que ele insere as fobias hist\u00e9ricas e as obsess\u00f5es nesse mesmo cap\u00edtulo. Ainda n\u00e3o pensei sobre esta quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, no cap\u00edtulo da <em>Traumdeutung<\/em> intitulado \u201cRela\u00e7\u00f5es entre sonhos e doen\u00e7as mentais\u201d, Freud trata sonho e loucura em p\u00e9 de igualdade. N\u00f3s o vemos citar fil\u00f3sofos em apoio \u00e0 sua tese. N\u00e3o \u00e9 seu costume fazer isso. Seria preciso recensear o aparecimento de fil\u00f3sofos em seu texto. \u00c9 extremamente raro. Pois bem, ali, ele cita Kant: \u201cO louco \u00e9 algu\u00e9m que sonha no estado de vig\u00edlia\u201d \u2013 o que \u00e9 verdadeiramente uma tese freudiana \u2013; depois, Schopenhauer, dizendo que o sonho \u00e9 uma breve loucura e a loucura um sonho prolongado.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos distinguir severamente o sonho como fen\u00f4meno universal e a loucura que acomete apenas alguns? O senso comum gostaria que os distingu\u00edssemos, que n\u00e3o os introduz\u00edssemos na mesma classe. No entanto, \u00e9 pr\u00f3prio da psican\u00e1lise ver entre os dois apenas diferen\u00e7as de qualidade e n\u00e3o diferen\u00e7as de natureza, para retomar aproximativamente a orienta\u00e7\u00e3o de Cl\u00e9rambault, evocada ontem por F. Leguil. \u00c9 pr\u00f3prio da psican\u00e1lise situar esses fen\u00f4menos em continuidade, ao passo que cabe aos guardi\u00f5es da realidade comum discrimin\u00e1-los e tra\u00e7ar uma linha intranspon\u00edvel entre o normal e o patol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos curtos-circuitos pelos quais tive de me decidir para n\u00e3o prolongar indevidamente este discurso de encerramento, acredito ter proposto uma orienta\u00e7\u00e3o clara para os trabalhos que ser\u00e3o apresentados em nosso pr\u00f3ximo Congresso, daqui a dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro<\/p>\n\n\n\n<p>Revis\u00e3o: Marcus Andr\u00e9 Vieira<\/p>\n\n\n\n<p>Releitura: Isadora Escossia, Fernanda Turbat<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">*<\/a> Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do pr\u00f3ximo Congresso da AMP, que acontecer\u00e1 em Paris, em 2024. Esta interven\u00e7\u00e3o foi pronunciada no encerramento da Grande Conversa\u00e7\u00e3o Virtual Internacional da AMP \u2013 <em>A mulher n\u00e3o existe -, <\/em>em 3 de abril de 2022, na Maison de la Mutualit\u00e9 de Paris e em videoconfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Vers\u00e3o estabelecida por Pascale Fari e \u00c8ve Miller-Rose com Romain Aub\u00e9 e Herv\u00e9 Damase, assim como com a contribui\u00e7\u00e3o de Ariane Ducharme, Jean-Claude Encalado, Nathalie Georges &amp; C\u00e9cile Wojnarowski. Texto n\u00e3o relido pelo autor e publicado com sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o. Uma primeira edi\u00e7\u00e3o foi publicada na revista <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, n<sup>o <\/sup>112, novembro 2022, p. 48-57.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[1]<\/a>. Lacan, J. (abril, 2010). \u201cLacan a favor de Vincennes!\u201d. <em>Correio<\/em>,Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<em>, <\/em>(65):31.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[2]<\/a>. <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[3]<\/a>. Lacan, J. (1998). \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d. In <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: JZE, p.126.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Esta f\u00f3rmula, que aponta o lugar do \u201creto\u201d em nossa \u00e9poca, \u00e9 o inverso daquela proposta por J.-A. Miller para especificar a orienta\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada por Lacan: \u201co torto prevalece sobre o reto\u201d (Cf. Miller, J.-A. (2007). \u201cNota passo a passo\u201d. In Lacan, J. (2007). <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>o sinthoma. <\/em>Rio de Janeiro: JZE, p.209).<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn6\" href=\"#_ftnref6\">[5]<\/a>. Cf. Dupont, L. &#8220;Le <em>pousse-\u00e0-la-femme<\/em> : de la structure \u00e0 la logique&#8221; &amp; Leguil, F. &#8220;L\u2019\u00e9rotomanie d\u00e9pathologis\u00e9e&#8221;, interven\u00e7\u00f5es na Grande Conversa\u00e7\u00e3o Virtual, publicadas na revista <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, n<sup>o <\/sup>112, novembro 2022, p. 88-94 &amp; 82-87.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[6]<\/a>. Lacan, J. (abril, 2010). <em>O<\/em><em>p. cit.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[7]<\/a>. Cf. Lacan, J. (1998). \u201cAbertura desta colet\u00e2nea\u201d. In <em>Escritos<\/em>. <em>Op. cit<\/em>., p.11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[8]<\/a>. Lacan, J. (2007). <em>Op. cit.<\/em>, p.20.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[9]<\/a>. <em>Ibid<\/em>., p.128.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[10]<\/a>. <em>Ibid<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AMP 2024<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller<\/p>\n<p>Cabe a mim dar o t\u00edtulo dos Congressos da AMP*\u00a0. Por que \u00e9 assim? O h\u00e1bito tomou conta, tornou-se uma esp\u00e9cie de tradi\u00e7\u00e3o \u2013 que perigo! N\u00e3o ser\u00e1 sempre assim. Mas \u00e9 preciso acreditar que esse momento ainda n\u00e3o chegou. Portanto, prossigo. 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